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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Boas recordações

Autor: Boaz Rios

Trazer à lembrança momentos passados, lembrar de pessoas, situações ou lugares guardados na memória, faz reviver sentimentos que, talvez adormecidos, guardam oportunidades para gratificantes reflexões.

A memória humana é repleta de recordações. Os bilhões de neurônios se articulam no cérebro para arquivar rostos, cheiros, lugares, situações, palavras, enfim, tudo que tenha ocorrido na vida das pessoas e no mundo. Tudo guardado como que em gavetas cujos dispositivos de abertura podem ser acionados por um perfume, uma palavra, uma música, uma imagem ou qualquer outro estímulo que desencadeie a lembrança.

As recordações promovem o prazer de reviver momentos agradáveis, ocasiões desfrutadas com amigos e familiares, ou na singela solidão de quem sentiu e guardou raras emoções. As más impressões que insistem em voltar à mente, mesmo que eventualmente, relembram situações constrangedoras, tristes ou decepcionantes, potencialmente capazes de provocar amargura e abater o ânimo.

Não é fácil se livrar de más recordações. Alguns vão dizer que o tempo apaga tudo, outros, que as boas lembranças superam os maus momentos. Contudo, mesmo que haja superação pessoal ou que se aprenda lidar no dia a dia com as más recordações, ainda assim, elas continuarão a existir, mesmo que no recôndito da alma.

A maneira como se enxerga a vida determinará o capítulo seguinte àquele no qual as más recordações traz o abatimento. Nas palavras do Mestre Jesus, "a candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso" (Mateus 6:22-23). É preciso enxergar a Deus mesmo em tribulações e, para tanto, o coração precisa estar limpo, afinal, "os limpos de coração verão a Deus" (Mateus 5:8). A constatação do Mestre a respeito daqueles que veem a Deus é a de serem bem aventurados, ou seja, são felizes os que limpam os seus corações e, mesmo que obscuramente ou embaçadamente (I Coríntios 13:12), na vida presente contemplam a Deus.

O apóstolo Paulo, não obstante a toda tribulação e sofrimento de sua vida, escreveu aos Filipenses (1:3) dando graças a Deus pelas boas recordações que guardava daqueles irmãos. Lembrou-se das coisas boas, de como cooperavam e participavam ativamente da pregação do evangelho. Os limpos de coração buscam um sentimento de pertencimento e não de rejeição, por conseguinte, se alegram e dão graças a Deus.

Haverá sempre nesta vida, um vestígio de incompletude e esperança, mas que não se confunde com desespero ou amargura. O sentimento de falta para o cristão é o crescente desejo de enxergar e compreender o seu Deus. Assim, no exercício da fé, em todas as recordações, resta a certeza de que Deus é mais do que se vê, tem mais a abençoar e pode mais do que tudo que pedimos ou pensamos (Efésios 3:20).

quinta-feira, 22 de março de 2018

Vida que desafia

Autor: Boaz Rios

A vida é movimento, é luta, é desafios. O universo se transforma, a terra gira, as estações pitam cores e desenham formas diversas. O mundo microscópico surpreende com suas peculiaridades: fungos, bactérias e outros micro-organismos promovem, incessantemente, uma verdadeira revolução natural.

Surgem mudanças a partir da ação humana, algumas boas, outras trazem consequências desastrosas. A tecnologia, por exemplo, sempre em constante evolução, movimenta o capitalismo ao mesmo tempo em que disponibiliza confortos para a vida humana. Como consequência, as pessoas, os governos, e as indústrias não conseguem resolver o problema do lixo tecnológico.

A estagnação, por outro lado, é sinal de morte. Deixar de crescer, de renovar, de movimentar, aponta para a possibilidade do esgotamento ou fim da vida. O certo é que o desafio ao novo é próprio à vida. Isto remete à necessidade de romper estruturas, transpor barreiras e vencer limitações.

Em um dos episódios narrados pelos evangelhos, Jesus, ao chegar a um lugar chamado Tanque de Betesda, percebeu que havia ali um paralítico, e lhe perguntou o que esperava naquele lugar. O homem lhe respondeu que acreditava que se conseguisse entrar na água quando esta era movimentada por um anjo, ele seria curado (Marcos 2:1-12).

Na história desse homem paralítico, a vida parece estagnada, sem nenhuma perspectiva. A primeira dificuldade era a sua condição de paralítico, num tempo no qual ninguém sequer cogitava sobre políticas de mobilidade urbana. A segunda dificuldade era a de sobreviver, num contexto social de total abandono, da sociedade ou do governo. Por último, a única possibilidade avistada naquela sombria circunstância era se locomover para a água e ter acesso à cura. Mas, trágico infortúnio, sua limitação física o impedia de ser curado, pensava ele.

Todavia, sobre a vida e o que ela reserva a cada pessoa, somente o Criador disciplina. Diante de circunstâncias adversas e ameaças à vida, ecos de morte insistem em ressoar. Jesus afasta os sinais de morte e renova na vida a esperança e a abundância (João 10:10). Jesus corrige os equívocos das falsas expectativas e mostra o caminho da restauração e da cura. Enfim, Jesus restitui a dignidade na vida, restabelecendo vínculos e relacionamentos. 

Na vida há realidades concretas que conspiram contra a própria existência. São diversas circunstâncias ou situações que desafiam, doem na carne e na alma,  e incomodam de verdade. É preciso ter cuidado com falsas expectativas e falsos caminhos, que da morte avizinham. Mais proveitoso é buscar a vida oferecida pelo Mestre Jesus, oportunidade para levantar-se, recolher-se da prostração e prosseguir em vida abundante.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Magnificat: Engrandecido seja o Senhor!

Autor: Boaz Rios

Maria, após encontrar-se com sua prima Izabel,  enalteceu a Deus pela graça de trazer em seu ventre o Salvador. Ao entoar o cântico, chamado Cântico de Maria ou Magnificat (Lucas 1: 45-55), ela demonstrou ter um coração grato, reflexo consciente de ser alvo da graça divina.

Outras expressões de gratidão e louvor são encontradas na bíblia, como nos Salmos quando diz "Bom é render graças ao Senhor" (92:1) e "Celebrai com júbilo ao Senhor" (100:1). Também, o apóstolo Paulo escrevendo aos Efésios instruiu para que a gratidão fosse falada e cantada com salmos, hinos e cânticos espirituais (Efésios 5: 19-20).

Por certo, há muitas razões pelas quais de deva externar gratidão, como diz o velho cântico: " Uma a uma, dize-as de uma vez, e verás surpreso o quanto Deus já fez". Maria engrandeceu ao Senhor expondo seus motivos e razões, como veremos a seguir.

Em primeiro lugar, Maria diz que foi contemplada, recebeu atenção, foi percebida. Maria não tinha razões para ser percebida, não era de família rica, não tinha educação e nenhum destaque social. Ela relata com bela singeleza que Deus contemplou a sua humildade, ou seja, que nada foi preciso para alcançar a benção divina a não ser colocar-se na condição de serva. Então, a contemplação, atenção e percepção divinas não relacionam-se à qualquer atributo da pessoa que as recebe, mas ao próprio interesse e desejo de Deus. Isto quer dizer que Deus contempla os seus filhos, que os seus olhos os observam com atenção (Salmos 34:15), excetuando-se aqueles de coração soberbo (Provérbios 8:13).

A relação com Deus é pessoal e íntima. Muito embora a promessa fosse para toda a humanidade, Maria expôs com intensa alegria o fato de Deus tê-la contemplado pessoalmente. Davi afirma no Salmo 40 que após ter esperado confiantemente, Deus veio ao seu encontro, se inclinou, ouviu, socorreu e, ainda, pôs em seus lábios um cântico (Salmos 40:1-3).  Deus busca a cada pessoa, individualmente. Somente entre as pessoas a relação pode ser institucional, mas com Deus não. Ele busca os seus adoradores pessoalmente, aqueles que o adoram em espírito e em verdade (João 4:23).

Outra razão pela qual Maria exaltou ao Senhor foi pelos seus atos de justiça, pois, segunda ela Deus: Afasta os soberbos, destrona os poderosos e sacia os famintos (Lucas 1:51-53). A justiça de Deus opera na história contra toda a opressão, violência, arrogância e soberba. A justiça de Deus se manifesta de forma pura, original e objetiva, contrariando todo propósito contrário, mesmo que já impregnado na cultura ou nas mentes e corações. Sobre a intenção de Deus em trazer Justiça, o próprio Mestre Jesus assim se posiciona: "Não fará Deus justiça aos seus?" (Lucas 18:7).

Por fim, Maria exaltou ao Senhor porque Ele foi fiel às suas promessas, "ajudou a seu servo Israel, lembrando-se da sua misericórdia para com Abraão e seus descendentes para sempre" (Lucas 1:54-55). Certamente, esta motivação para exultar a Deus nunca desaparece, pois grande é a sua fidelidade (Lamentações 3:23).

O Deus eterno, misericordioso e fiel, continua a irradiar as suas boas novas de grande alegria a todos quanto o buscam de forma íntima e pessoal, acreditam em suas promessas e em seus atos de justiça. Da Divina visitação resulta uma nova vida, cheia de esperança, fé e amor, entusiasmada com a perspectiva de restauração total da existência em Cristo Jesus, ao qual se deve todo o louvor e adoração.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Descansar ou seguir em frente?

Boaz Rios

Quando os Judeus ocuparam o território de Israel expulsaram alguns povos, mas conviveram com outros, inclusive formalizando acordos, contraindo matrimônios, mesmo não sendo permitido por Deus. Esta relação com os vizinhos era difícil e hostil, gerando guerra, violência e morte, e, tendo a paz, certamente, como algo almejado por todos. Em um desses episódios turbulentos Israel lutou e derrotou os filisteus, então o Sacerdote Samuel pegou uma pedra e a colocou como um marco dizendo: "Ebenézer, até aqui nos ajudou o Senhor" (I Samuel 7:12). A palavra "Ebenézer" significa pedra de descanso, demonstrando um reconhecimento à Deus pela vitória alcançada.

De maneira semelhante, a vida é invadida por forças hostis, maldosas e cruéis causando muito sofrimento. Sem dúvida, ao encontrar um lugar de descanso, o desejo de qualquer coração angustiado é ali permanecer. É um conforto pensar na mensagem de libertação e paz trazida por Jesus quando disse: "Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" (Mateus 11:28).

No entanto, a luta continua. Os inimigos da alma estão ao redor promovendo a morte. Descansar é bom, é fruto da benção e providência divinas, mas, também, é sinal que a fidelidade de Deus impulsiona a seguir em frente.

Ebenézer, pedra de descanso, é um marco que reconhece a fidelidade de Deus. O perigo é grande, e o inimigo é voraz. Os caminhos escolhidos, à vezes, beiram abismos. As ciladas do caminho apontam para a única esperança, saber que o livramento vem do Senhor: "Olho para os montes, de onde me virá o socorro" (Salmo 121:1-2). Colocar um marco significa proclamar, testemunhar, enaltecer, revelar o propósito de Deus em permanecer sendo o libertador, o guardador, como diz o Salmista: "Eis que não dorme o guarda de Israel" (Salmos 121:4).

Há um  perigo no lugar de descanso: acreditar ser ali o destino final. O lugar de descanso é o refrigério, o fortalecimento para continuar na batalha. É preciso combater o comodismo. É inútil agarrar-se à pedra de descanso, à oportunidade de refrigério. É preciso prosseguir, pois, como Deus esteve presente até ali, Ele continuará cumprindo o seu propósito no caminho que prossegue.

Desfrutar de vitórias e refrigérios no decorrer da caminhada estimula a seguir em frente. Este é o sentimento: Deus está conosco, nos trouxe até aqui, então prossigamos, como disse o Sacerdote Samuel: "Até aqui nos ajudou o Senhor". O propósito de Deus irá se cumprir na caminhada, no prosseguir daquele que se dispõe a levantar-se em luta contra o mal, dentro e fora de si. Sempre haverá um lugar de descanso, em que se possa dizer: Ebenézer.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Que darei ao Senhor?

Boaz Rios

Dar um presente a alguém não é tarefa aparentemente fácil. Envolve um conteúdo emocional além de fatores como conhecimento sobre a pessoa, condições financeiras, desprendimento pessoal, empatia, dentre outros.
Para presentear fica sempre a preocupação sobre de que forma prestar homenagem. O salmista Davi se preocupou com isso: "Que darei ao Senhor por todos os benefícios que tem feito para comigo" (Salmos 116:12).

Qual a razão desta preocupação? O que moveu o seu coração, qual a intenção do Salmista em fazer este questionamento? Seria insegurança, desconhecimento sobre a pessoa de Deus, insuficiência de recursos?
Talvez a preocupação de Davi em relação a Deus também exista em nós. Será que sentimos o desejo de honrar a Deus e não sabemos de que forma? O que poderia ajudar neste processo?
Vale ressaltar, em primeiro lugar, a necessidade de procurar conhecer a pessoa a quem quer presentear. Conhecer o gosto, a necessidade, o tamanho, as cores, enfim, todas as informações que facilitem identificar aquilo que satisfaça ao homenageado.
Quando não se tem nenhuma informação, o resultado da homenagem será sempre uma incógnita, um pulo no escuro. Será que vai agradar? O que agradaria a Deus? O que seria bastante para aquele que é Senhor de tudo, dono de tudo e de nada necessita?
Conhecer a Deus é importante e necessário. Será o que lhe agrada? Seria esta a questão que preocupa o salmista quando perguntou: "Que darei ao Senhor"?
No terrível episódio envolvendo os irmãos Caim e Abel, a bíblia relata que Deus não se agradou da oferta de Caim, pois ele não lhe conhecia, não sabia o que lhe agradava. Veja como Deus argumentou com Caim: "Porque decaiu o teu semblante? Se procederes bem não é certo que serás aceito? (Gênesis 4:6).
É necessário buscar conhecer a Deus, assim como afirma o profeta Oseias: "Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor" (Oseias 6:3).
Outro ponto a ser observado é que pode-se conhecer a Deus, saber do que gosta ou aquilo que lhe agrada, contudo não ter ou acreditar que não tenha, condições para ofertar. O presente pode ser oneroso, valioso, difícil para ser doado, incorrendo numa limitação pessoal no ato de dar, um sentimento de incapacidade de ordem física, material, financeira, emocional, etc.
Talvez teria sido este o problema aventado por Davi naquele momento em que perguntava o que daria à Deus. Estaria no dilema de saber o que deveria dar, como deveria agradar a Deus, mas não se sentir capaz de fazê-lo.
Certamente, em termos materiais, caso surgisse o desejo de dar a Deus algo tão oneroso que fosse impossível fazê-lo, ficaria o dilema por toda a vida: Que darei? O que farei? Como lhe agradarei? No entanto, certamente, tal dilema seria por falta de conhecimento sobre Deus, pois Ele não exige mais do que se pode dar, isto não lhe agradaria.
Contudo, até naquilo que se dispõe, persiste a sensação de incapacidade em agradá-Lo. Há indisposição em abrir mão de valores, de bens ou qualquer outro tipo de patrimônio. Há indisposição em ofertar tempo, habilidades e talentos. Há indisposição em comprometer as emoções, pois existem outras prioridades, outros desejos, outros diferentes deuses aos quais as homenagens são prestigiadas.
Desta forma, persiste a incapacidade, real ou deliberada, em não procurar agradar a Deus, até mesmo quando se deseja fazê-lo.
Outro aspecto essencial no ato de presentear a Deus é o envolvimento pessoal do doador. Não importa o tamanho, a cor, o valor ou características do presente, desde que venha com o nome, a essência, a vida do doador.
No mesmo texto o salmista Davi declara: "tomarei o cálice da salvação". Esta era a resposta ao seu questionamento inicial. O que ele precisava fazer era se envolver, se entregar, ofertar-se a si mesmo. A respeito do episódio entre Caim e Abel, o escritor da carta aos Hebreus informa que "pela fé, Abel ofereceu sacrifício mais excelente" (Hebreus 11:4). A diferença fundamental para a não aceitação não estava no conteúdo da oferta, mas no coração do doador.
Devoção, contrição, temor, obediência, serviço, amor, dentre outros, são alguns dos elementos encontrados na oferta aceita por Deus. Como afirma o salmista, um coração compungido e contrito Deus não despreza (Salmos 51:17). Este é o maior desejo do Pai celestial: "Dá-me, filho meu, o teu coração (Provérbios 23:26).

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Notícias de última hora: A chuva caiu, a água subiu...

Nunca se viu tantas e tão variadas notícias. Fala-se sobre tudo e sobre todos. A velocidade é imensa, quase instantânea. Muitos dizem que vivemos na era da informação, na qual as pessoas possuem acesso rápido e indiscriminado à todo tipo de informação, facilitado ainda pela expansão e acessibilidade aos meios digitais.
Diante disto, algumas questões carecem de respostas: O que as pessoas têm feito com as informações adquiridas? O conhecimento divulgado é útil? Com essas informações as pessoas ou a sociedade se transforma e se qualifica?

Em uma de suas parábolas, Jesus conta a história de duas casas. Uma foi construída na rocha e a outra sobre a areia. Veio chuva e enchente sobre as duas, mas somente a construída sobre a rocha resistiu. Em sua explicação, o Mestre compara a casa edificada sobre a rocha à pessoa que ouve a palavra de Deus e a pratica. Por outro lado, aquela casa que ruiu é semelhante à pessoa que ouve a palavra de Deus e não a pratica (Bíblia sagrada, Lucas 6:47-49).
O Mestre não tinha dúvida: Certamente há muitos que ouvem! As informações estão sendo digitadas, anunciadas, divulgadas por diversos meios de comunicação, chegando ao conhecimento de muitas pessoas. Alguns ouvem e refletem sobre as mensagens, no entanto, na maioria das vezes, as informações são descartadas. É preciso e importante anunciar, falar e divulgar, assim como, fazer com que as pessoas sejam alcançadas e influenciadas pela mensagem.
Contudo, é importante discernir o conteúdo daquilo que se está comunicando. É natural a percepção de que muito do que se divulga não tem o menor valor, sendo inútil, vil e, até mesmo, danoso. Jesus deixa claro que é necessário ouvir a palavra de Deus, quando ele diz: "Quem ouve estas minhas palavras". Jesus distingue as suas palavras, elas são diferentes. Manifestam a verdade, trazem vida, luz para o caminho, purificam, saciam a sede e conduzem ao Pai.
Porém, Jesus adverte para a prática da palavra de Deus, quando diz: "Quem ouve estas minhas palavras e as pratica". As palavras do Mestre não podem simplesmente serem ouvidas, colocadas no mesmo patamar das demais informações recebidas no dia a dia, pelo contrário, deve-se dar atenção e levar a efeito na própria vida, conforme afirma o apóstolo Tiago: "Tornai-vos, pois, praticantes da palavra" (Bíblia Sagrada, Tiago 1:22-24).
Por mais que se advirta há muitos que continuarão ouvindo de tudo, mas não darão ouvidos às palavras do Mestre. Por mais que se fale, há muitos que continuarão ouvindo, mas não colocarão em prática as palavras do Mestre. Desta forma, a chuva cairá, a água subirá e as casas hão de ruir. Por outro lado, aqueles que ouvirem e praticarem as palavras do Messias estarão seguros em suas moradas.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O indecifrável futuro incerto

Boaz Rios

Às vezes a realidade se apresenta tão definida e imutável que não acreditamos no surgimento de qualquer mudança ou na possibilidade de descobertas. Observamos e percebemos que tudo se apresenta hoje da mesma forma que foi ontem, e assim, sucessivamente.
Há os que se habituam com rotinas, pois a falta de normalidade, inclusive, gera transtornos, incômodos e contrariedades. Por outro lado, outras pessoas desejam coisas novas e a repetição sistemática dos afazeres e compromissos corriqueiros provocam sentimentos de tédio, cansaço e impotência. Já, a desatina e incessante busca pelo novo, também, traz embaraços, dores e decepções.
Quanta perplexidade emerge da incompreensão humana sobre a eternidade! Analisar e compreender o que ocorreu ou está ocorrendo com a vida incomoda tanto, porém, não mais do que o desconhecimento daquilo que virá, do indecifrável futuro incerto.
O sábio Salomão em Eclesiastes 3:1 diz que Deus fez tudo apropriado ao seu tempo. Esta afirmação traz uma completude, uma integridade e perfeita integração entre os feitos eternos de Deus e o tempo em que estes feitos se materializam no decorrer da vida humana. Assim, há momentos que plantamos, colhemos, rimos ou choramos, tudo em seu tempo determinado.
Saber que existe um tempo determinado não tira do ser humano a inquietação, pois, continuamos a analisar, compreender e desejar o novo, o incompreendido, o indecifrável futuro incerto. O Pensador, então, acredita que este sentimento provém do próprio Deus, que: “Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez” (Eclesiastes 3:11).
Então, o desejo posto por Deus no coração do homem, aquilo que o incomoda pela completa obscuridade, em suma, é o desejo pelo próprio Supremo Deus Eterno, mesmo que, por vezes, humanamente e momentaneamente despercebido. Porque a eternidade provém de Deus, há sempre coisas novas a surgir. A realidade que conheço, vivo e experimento não é definitiva e imutável. Existem muitas coisas obscuras - muitas serão descobertas, outras não. Paulo disse, "agora vejo como por espelho, obscuramente" (I Coríntios 13:12). Existem coisas encobertas, segredos de Deus, e por isso, pertencem somente a ele (Deuteronômio 29:29).
Há coisas belas e perfeitas. No devido tempo, Deus as manifesta surpreendentemente, assim como as revelou a Jó: "Certo é que falei de coisas que eu não entendia coisas tão maravilhosas que eu não poderia saber" (Jó 42:3).
As descobertas fazem parte das buscas de cada um. A descoberta é uma experiência pessoal envolvendo perspicácia, entendimento e disposição.  É preciso permitir-se envolver na descoberta para, enfim, experimentar o novo com autenticidade, promovendo uma verdadeira transformação, uma metanoia capaz de afetar toda a existência impondo à vida nova perspectiva.
Diante da nova realidade inaugurada, exige-se esquecer o passado, desobrigar-se, e lançar-se aos novos desafios. Na parábola de Jesus o reino de Deus é comparado ao homem que, achando um tesouro, vai e vende tudo que tem e compra aquele campo (Mateus 13:44). O profeta Jeremias expõe o seu desejo: “Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos; renova os nossos dias como dantes” (Lamentações 5:21).
Por certo, continuaremos a conviver com o indecifrável futuro incerto, porém belo e perfeito, pois, guardado em Deus.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Caos, morte e esperança

Autor: Boaz Rios

Imagem:https://aidobonsai.com/category/bonsai-rosa-do-deserto/
Em tempos remotos quando se conquistavam cidades através de guerras, por vezes, os povos eram escravizados e as casas queimadas, expondo de longe os sinais da crueldade. Hoje em dia, ainda persistem violências cruéis e notórias, no entanto, outras muitas atrocidades e maldades atingem homens e mulheres, negros e brancos, velhos e novos, mesmo que de forma velada. 

Quem há de duvidar do cheiro de morte exalado no mundo? Afeta de tal forma que todos sentem, respiram e são impregnados pelo odor dessa fumaça maldita. Não obstante à forma como se apresenta ou de onde possa vir, A violênciaseja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”, afirma Jean-Paul Sartre.

Até os santos, na Bíblia e na história, conviveram e sofreram com as tragédias. Desde o assassinato entre os filhos do primeiro casal, até as tragédias na família de Davi ou as perseguições e martírios sofridos pelos primeiros cristãos, tudo evidencia cenários tingidos de caos, morte e sofrimento.


Todavia, o evangelho, as boas novas de Jesus de Nazaré, sem dúvida, traz um conteúdo de cunho vitorioso, porém nunca triunfalista. O que significa ser triunfalista? É ser cooptado por um tipo de mensagem veiculada por movimentos neopentecostais que associam a vida cristã a uma necessária prosperidade e ausência de sofrimento, definitivamente antagônica à pregação e vida do Cristo. Este pensamento é rejeitado por sérios pensadores cristãos, como de C. S. Lewis: "Eu não fui para religião para me fazer feliz. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do porto faria isso. Se você quer uma religião para fazer você se sentir realmente confortável, certamente eu não recomendo o Cristianismo". 

Os relatos bíblicos sobre Jó exemplificam a dor e angústia que podem sobrevir a qualquer pessoa, inclusive àquelas consideradas íntegras, justas e tementes a Deus (Jó 1:1). O sofrimento dele foi intenso, ocasionado pelas mortes na família, abandono dos amigos, destruição dos seus bens e grave enfermidade, o que o levou a esperar unicamente a morte, porém não descrendo de Deus, no qual mantinha a esperança (Jó 17 e 19:25-26).

Caos e morte embora contrariem e atentem contra a vida, nela estão presentes. A afirmação da vida é a ordem natural, impulsionada que foi pelo sopro divino. Contudo, aprouve ao criador permitir a cada um, de per si, arbitrar entre a vida e a morte, sem contudo extinguir a ordem de vida que, por fim, prevalecerá soberanamente. Deste modo, são muitas as manifestações de morte como a tristeza, a angustia por si mesmo ou por outros, as decepções, as frustrações, as desilusões, e outras formas de dor e sofrimento que afetam a carne e a alma (Salmos 18:4-6, 44:21-22; 25: 17-18, 116:3-4).

Contudo, a vida não está dominada pelo caos e morte. Por mais que seja forte, dura ou cruel, a maldade não é absoluta. Não há determinismo no que é consequente. Há uma ordem de vida e não de morte, de alegria e não de tristeza, de esperança e não de desalento. Deus ordenou a vida, Ele é o todo poderoso, o El Shadai (Gen. 17:1), o princípio e o fim, o alfa e o ômega (Apoc. 1:8). Dores, tragédias, angústias e decepções, decorrem universalmente do desajuste à ordem de vida. Inexoravelmente, esta ordem não foi revogada, sua aplicação é válida e possui efeitos imediatos e eternos. Daí decorre o conceito de esperança, expressado nas palavras do temente Jó: "Eu sei que o meu redentor vive" (Jó 19:25).

Em Cristo há esperança. Ele suportou toda dor, decepção, angústia e por fim, a própria morte, mas prevaleceu a fim de subordinar todo poder contrário à ordem de vida (Efésios 1:20-23). Por esta razão, afirma o apóstolo Paulo que agora "permanecem a fé, a esperança e o amor" (I Coríntios 13:13), sentimentos que decorrem da ordem de vida e se manifestam mesmo em meio ao caos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Com que se parece o Reino de Deus?

 Autor: Boaz Rios

"Então Jesus perguntou: "Com que se parece o Reino de Deus? Com que o compararei? É como um grão de mostarda que um homem semeou em sua horta. Ele cresceu e se tornou uma árvore, e as aves do céu fizeram ninhos em seus ramos “(Lucas 13:18-19).
Temos uma necessidade ou, no mínimo, curiosidade de reconhecer, perceber e desfrutar do reino de Deus. Agora, imagine que você venha saber que esse reino já chegou, com certeza aumentaria a esperança por experimentá-lo. Era esta a expectativa dos que se ajuntavam ao redor do mestre Jesus Cristo: reconhecer, perceber e desfrutar do reino que ele anunciara estar perto.
Podemos pensar na perplexidade e, ao mesmo tempo, na incompreensão de olhar para todas as circunstâncias adversas, para o cotidiano conhecido e, por vezes, entediante, e não vislumbrar nada de novo, nenhuma perspectiva de mudança capaz de entusiasmar.
Então, parece razoável a preocupação em saber a aparência do reino anunciado. Esse interesse vem, em primeiro lugar, pelo desejo de identificar, ou seja, conhecer as qualidades para possibilitar o reconhecimento; Depois, para comparar, experimentar, perceber os seus atributos e avaliá-los a partir dos padrões pessoais; Por último, para decidir se lhe é conveniente e agradável, ou não. 
Seria possível a negativa quanto o desfrutar do reino de Deus? Á primeira vista, parece que não. Na realidade, porém, muitos rejeitaram e continuam a rejeitar o reino oferecido por Jesus, a exemplo do Jovem que não quis seguir a Jesus porque era muito rico ou dos dez leprosos que foram curados, mas somente um se interessou por retornar.
Logo, a questão que merece o cuidado de Jesus é: Com que se parece o reino de Deus? Para responder, o Mestre imaginou o grão de mostarda, por que:

1.    É um grão imperceptível, mas, na verdade, valioso;

O reino de Deus parece imperceptível a muitas pessoas e em muitos momentos, assim como um grão de mostarda, que por ser uma hortaliça, é uma semente muito pequena. Assim, o reino de Deus nos é apresentado e, por vezes, não o reconhecemos. São vozes baixas e tímidas, são portas entre-abertas que nos convidam acanhadamente. Porém, são possibilidades que por mais remotas que pareçam, surtirão um efeito extraordinário, notadamente, se aprendermos a crer e a exercitar a fé.
A semente traz em si as qualidades genéticas da planta-mãe. Quando não modificadas em laboratório, reproduzirão as características da sua espécie. O reino de Deus é intrinsecamente valioso, pois, mesmo não o percebendo, guarda em si as qualidades perfeitas e eternas do próprio Deus.
A semente, mesmo que pequena, guarda qualidades não visíveis e não conhecidas, que só se revelarão após a germinação e vegetação da planta. Assim, também, o Reino de Deus é repleto de novidades, de coisas inusitadas, de sabores a degustar e dos mais variados estímulos para aguçar os nossos sentidos e nos fazer perceber o quanto não conhecemos da realidade. 
Talvez a novidade não nos seja agradável, confrontem os nossos estilos, os nossos gostos e nos façam tentar rejeitá-la. É possível, também, que o novo apresentado pelo reino de Deus seja por demais desafiador e, por isso, venha a ser temido.
Por isso, o valioso grão do reino de Deus se percebe por meio da fé, por meio da qual é possível andar sobre as águas, repartir o pão escasso ou dispensar o perdão inesperado.  Assim, a pequena semente, na verdade é grande - ela guarda em si a perfeição, o desejo de Deus revelado a cada um de nós, por isso fica o conselho do poeta: "não rejeite os tímidos começos, eles também rumam aos finais" (Jorge Camargo).

2.    É um grão imperceptível, mas, de resultado surpreendente;

Quem não conhece o que a semente vai gerar, não é capaz de afirmar o seu resultado. Jesus observou o grão de mostarda e percebeu que aquela sementinha apresentava um resultado surpreendente, porque se transformava numa árvore que acolhia os pássaros. O que era perceptível momentaneamente no grão de mostarda não traduzia os efeitos formidáveis vislumbrados no futuro.
No Reino de Deus o resultado não é condicionado pelas circunstâncias e aspectos já conhecidos. Não há qualquer limitação de ordem humana ou material que impeça a manifestação poderosa de Deus, como esclarece o salmista Davi: “Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará” (Salmos 1:3).
O Reino de Deus se manifesta enaltecendo a plenitude do poder divino. Por mais que nos esforcemos, o resultado dos feitos divinos é incomparavelmente superior ao que possamos alcançar pelo mero esforço humano. Por esta razão Jesus aponta: "Eu lhes asseguro que se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: ‘Vá daqui para lá’, e ele irá. Nada lhes será impossível” (Mateus 17:20). Nas palavras de CS Lewis: Existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás. 

3.    É um grão imperceptível, mas, na verdade, totalmente inclusivo

As aves do céu vinham e se acomodavam no pé de mostarda. A hortaliça, agora, era um local acolhedor, um espaço aberto para receber todos os tipos de pássaros. As cores se misturam e os cantos dos pássaros se harmonizam, neste habitat propício ao convívio saudável.
Era esse o reino imaginado por Jesus, quando fez a comparação com o pé de mostarda. Um local acolhedor, que não discrimina pela aparência ou comportamento, simplesmente, acolhe. Neste lugar há proteção, descanso, providência, paz e felicidade. Quando se percebe a presença do reino há vontade de cantar, de se alegrar de engrandecer ao magnífico criador pela grandiosidade da obra.
Esta é uma inclusão que vai além da que estamos acostumados, pois nos insere na dimensão espiritual, permitindo-nos viver no caminho eterno, como instrui o salmista: “Vê se em minha conduta algo que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno” (Salmos 139:24). A efetiva inclusão ocorre na dimensão espiritual, permitindo clara percepção da vida e seus desafios e, como consequência, fazendo brotar na existência esperança, força e fruto.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Os caminhos da vida

Boaz Rios

Entender a vida... como? A vida é tão surpreendente e imprevisível, que qualquer tentativa de condicionamento não passa de simples ilusão. Os olhos se voltam para trás no propósito de compreender o que passou, às vezes, encontrando significados, razões, motivações e realizações, outras vezes, percebendo frustrações, decepções e tristezas. O passado, por certo, revela-se bastante esclarecedor, porém, poucos se detêm em buscar entendê-lo.
Inegavelmente, a atenção reside nos tempos presente e futuro, o que resulta, por um lado, em muita preocupação em razão dos cuidados do dia a dia e, por outro lado, em muita ansiedade ao preocupar-se com o que poderá, ou não, acontecer. Bom seria atentar para as palavras do filósofo Heródoto: "Pensar o passado, para compreender o presente e idealizar o futuro". Ou refletir nas palavras do mestre Jesus: "Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal" (Mateus 6:34). Quanto a vida é natural que paire certa nebulosidade, ora intermitente, ora constante, não obstante, enquanto persista, obscurece o entendimento, confunde os caminhos e furta o equilíbrio. Desequilibrar-se, às vezes, é importante, e faz parte da vida, como bem afirma Soren Kierkegaard: "Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente, não ousar é perder-se".
De onde virá a luz? Sem sombras e nem dúvidas, a vida é iluminada por Deus. Ser luz é da essência do próprio Deus, logo, na ausência de Deus as trevas se manifestam, mas em sua presença as trevas não subsistem (1 João 1:5; Salmos 139:11-12). Não há acaso, tão pouco, determinismo do mal. Quando Deus é percebido e sua graça irradia luz, em qualquer circunstância e para qualquer pessoa, o caminho se torna claro e irresistível.
No caminho há perigos iminentes. No Salmo 16, versículo 1º, o salmista exclama: "Protege-me ó Deus, pois em Ti me refugio". O pedido contundente expõe necessidade, urgência e gravidade. É preciso estar atentos e vigilantes, expondo sempre os perigos ao Pai que dispensa seu cuidado aos que o buscam (Salmos 139:23-24). Buscar a Deus não configura em tentativa para solução de crises, mas, em certeza da proteção (Salmos 16:8).
No caminho há garantia de gozo, felicidade, alegria. A alegria vem de dentro, brota no interior da alma humana e se manifesta na vida. O apóstolo Paulo afirma que a alegria é fruto do Espírito Santo (Gálatas 5:22). A alegria, que brota no interior da alma, se manifesta: a) Nos companheiros, irmãos de caminhada e fé (Salmo 16:3); b) Na recompensa do trabalho (Salmo 16: 5 e 6); c) Na presença e ensinamentos de Deus (Salmo 16:7-9).
Conhecer o caminho da vida, ou ser guiado no caminho eterno, é o desejo da alma humana. Acreditar que Deus tem, quer e propicia o caminho de plena felicidade é esperança. Experimentar, ainda nesta vida, física e palpável, da alegria suprema da alma somente é possível por intermédio de Jesus Cristo, pelo que diz: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida e ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14:6).

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Pais convertidos aos filhos e filhos aos pais

Boaz Rios

O que falar do distanciamento nas relações entre pais e filhos? Abismo de gerações? Dificuldades de compreensão dos pais ou insubordinação e rebeldia dos filhos?

Certamente, o papel dos pais tem sofrido alterações nos últimos tempos. Aquela figura do pai mantenedor, provedor, que pagava as contas e, por esta razão, impunha regras ou comportamentos, enfraqueceu-se com a crescente participação da mulher no mercado de trabalho, bem como, a sua corresponsabilidade na manutenção da família. Por conseguinte, os pais passaram a compartilhar com as mães da responsabilidade na educação dos filhos e outras tarefas domésticas, impondo-lhes um aprendizado outrora incumbido especialmente aos cuidados maternais.

Quanto ao filhos, certamente, são outros. Não de maneira pejorativa, até porque são afeitos naturalmente às mudanças. Crianças, adolescentes e jovens, atualmente, expostas a um volume extraordinário de informações, rapidamente desencantam-se com a sabedoria dos pais, e podem não tê-los mais como referência, o que era marcante em outros tempos. Assim, cada vez mais cedo, os filhos, precocemente, tornam-se independentes e não carecem, mesmo que queiram, da opinião, conselho ou ajuda dos pais. Ainda pior será o quadro onde a relação se desgasta e o comportamento arredio dos filhos é visto pelos pais como desobediência ou rebeldia.

Lá no final do antigo testamento, o profeta Malaquias (4,6) faz uma promessa maravilhosa: “Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos filhos para seus pais”. Realmente, pais e filhos, precisam caminhar nesta direção, uma verdadeira conversão mútua. O que possibilita isto é o evangelho de Jesus Cristo.

Primeiramente, Jesus é exemplo de filho que honrava ao seu Pai, como Ele mesmo reconhece: "Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado" (Marcos 1:11). Outro fator importante na relação é se esforçar no conhecimento mútuo, como Jesus afirma de forma interessante: “Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho” (Mateus 11:27). De igual forma, para superar todas as dificuldades e tornar a relação, cada vez mais, profunda, zelosa e duradoura, é cultivar o amor: “O Pai ama o Filho e entregou tudo em suas mãos” ( João 3:35). Por fim, ainda que Jesus tenha muito mais a ensinar, ele afirma ter um coração totalmente em sintonia com o Pai, uma identificação total ao ponto de exclamar: “Quem me vê, vê o Pai” (João 14:9).


A promessa do profeta Malaquias é um alívio para a angústia de tantas relações desgastadas entre pais e filhos, e, genericamente, alcança a todos que buscam o evangelho de Jesus de forma a permitir a transformação integral da vida e a total restauração das relações.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Tristeza tem fim, felicidade não!

Por Boaz Rios

Nos versos da bela canção de Vinícius de Moraes e Tom Jobim a felicidade está relacionada a momentos de extremo prazer e beleza, porém, logo esvanece. Seja a pluma que voa, a gota que cai, o carnaval que acaba ou a frustração de não ter os beijos da mulher amada, a poesia enfatiza a tristeza que não acaba, conflitando com a alegria passageira.
Em alguns versos de Cecília Meireles, a poesia da tristeza se revela num desejo inalcançável que domina toda a vida impedindo a possibilidade de qualquer outra alegria: “Sou triste porque a minha alma não quer mais nada, do que tem... Porque a minha alma não pode ter nada mais... Sou triste, sou triste, sou triste porque sonhei coisas inalcançáveis, que se não devem sonhar!...”. 
Essas são algumas impressões que se tem da felicidade, pois na vida ela é desejada, perseguida e apreciada, no entanto, rapidamente se apresenta passageira, sutil e, às vezes, ilusória e decepcionante. A felicidade, também, pode ser alcançada através das realizações, ou seja, em razão do sucesso obtido nos empreendimentos pessoais, nos relacionamentos, ou em outras áreas da vida. Melhor ainda, quando se fica feliz no sabor da surpresa, quando se chega a um prazer inesperado, fortuito, para o qual, em nada se colabora e somente dele desfruta. 
Percebe-se ser tão fácil atrelar a felicidade a espaços, momentos ou circunstâncias, sendo que a sua fugacidade empresta lampejos de alegria à vida cheia de tristezas e decepções. Por outro lado, aumenta-se a distancia entre os conceitos "ser feliz" e "estar feliz". Quando se pensa em momentos, circunstâncias, ou demais fatores que ensejam a felicidade, então, o conceito é o de "estar feliz". No entanto, "ser feliz" é uma predisposição, um impulso imanente capaz de persistir, inclusive, diante das condições adversas. Seria isso possível? Por mais que a felicidade pareça circunstancial para alguns, por certo, encontramos muitos que são felizes apesar das circunstâncias.
Alguns filósofos já discorreram a respeito da alegria que antecede condições externas ao próprio indivíduo, como em Espinosa, no qual a alegria é potência de agir, ou em Soren Kierkegaard, quando afirma que a alegria chega a ser inexplicável, como vemos:
Há uma alegria indescritível, que emana através de nós tão inexplicavelmente como quando irrompeu            do Apóstolo sem aparente motivo: “Alegrai-vos, e novamente vos digo: alegrai-vos”. Não uma alegria             sobre isso ou aquilo, mas um grito sincero de toda alma “com a língua e boca do fundo do meu                       coração”. [Søren Kierkegaard]

Quando se despedia dos seus discípulos, antevendo a hora de sua partida, Jesus Cristo assim comentou: "Assim acontece com vocês: agora é hora de tristeza para vocês, mas eu os verei outra vez, e vocês se alegrarão, e ninguém lhes tirará essa alegria" (João 16:22).  Nesta frase, o Mestre reconhece a tristeza circunstancial, porém afirma e garante aos seus discípulos uma alegria inesgotável e incondicional.
Ao crer em Deus como razão de tudo, por conseguinte, toda a existência, inclusive a humana, a Ele se submete e dEle depende. Deste modo, quando cremos em Deus desta forma, entendemos os nossos sentimentos à medida que a sua revelação nos alcance e nos ajude nesta autocompreensão, como explica João Calvino: "o homem jamais chega a um conhecimento puro de si mesmo sem que, antes, contemple a face de Deus, e, dessa visão, desça para a inspeção de si mesmo." (CALVINO, J. A Instituição da Religião Cristã, I, L. I e II. São Paulo: UNESP, 2008, p.38).
Então, a tristeza está sujeita a condições, circunstâncias e momentos, porém a alegria é impulso, é potência para agir, é força para viver, como exclamou Neemias: “Este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não se entristeçam, porque a alegria do Senhor os fortalecerá” (Neemias 8:10).

É preciso entender a poesia da tristeza no limite das suas condições promovedoras. Logo, a tristeza não tem fim, por exemplo, somente enquanto persiste a fútil decepção de esperar pela alegria do carnaval ou quando aspira coisas inalcançáveis. Contudo, a tristeza logo se dissipa quando se volta para Deus, permitindo por Ele ser renovado, inspirado e conduzido à alegria que não tem fim.



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Viva feliz em família

Boaz Rios
Fonte da imagem: http://versadus.com/familia.html

As reflexões do sábio Salomão em Eclesiastes nos levam a pensar sobre a vida e suas nuances, expondo desejos, frustrações, prazeres e sofrimentos da vida terrena, traduzidas em frases como: "Tudo é vaidade e correr atrás do vento". Salomão não rejeita o prazer ou a felicidade, mas sabe que nada é inconsequente: "...Saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento" Eclesiastes 11:9.
Dentre os prazeres elencados pelo sábio, há as delícias do paladar - comer bem, experimentar os sabores da vida. Destaca, também, o vestir-se bem, degustar um bom vinho e, por fim, estimula a que gozemos a vida com a mulher que amamos, como se vê nas seguintes palavras:  "Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol" (Eclesiastes 9:7-9).
Viver feliz com a mulher que ama implica associação de propósitos, convívio, reciprocidade e cumplicidade. Esta convivência, ampliada com o surgimento dos filhos ou não, se constitui no ambiente mais íntimo da vida em sociedade, ou seja, a família. Ocorre que a vida em família tem sido afetada por muitos fatores como desagregação, frustração, decadência de valores, etc., obrigando este modelo a se transformar, se adaptar e, por vezes, se esvanecer.
Diante de todo esse quadro, e à luz do que ensina o sábio Salomão e outros textos bíblicos, podemos fazer, pelo menos três afirmações a respeito da vida feliz em família:

1) Felicidade é coisa de Deus:
Deus não é amargo, sisudo ou cruel. Essa caricatura não combina com Deus. A justiça do Pai celestial, por alguns interpretada como tirana, na verdade é exercida a partir da verdade suprema nele contida  e aplicada em nós no mais perfeito amor, visando o crescimento e aperfeiçoamento dos seus filhos. Desta forma, não pode a igreja, composta por esses filhos amados, se apresentar triste e enfadonha, como esclarece o escritor aos Hebreus: "Mas Deus nos disciplina para o nosso bem, para que participemos da sua santidade. Nenhuma disciplina parece ser motivo de alegria no momento, mas sim de tristeza. Mais tarde, porém, produz fruto de justiça e paz para aqueles que por ela foram exercitados" (Hebreus 12:10-11).
Por outro lado, nos ensina as escrituras, que existe uma alegria não inspirada em si mesmo, ou sequer provocada por estímulos externos ou circunstâncias, é a alegria fruto do Espírito Santo de Deus (Gálatas 5:22). Ela tem uma fonte própria, não depende de condições e não se esgota, pois esta alegria é fruto do Espírito de Deus.
Encontrar a felicidade, então, depende, na verdade, da disposição pessoal em buscar a Deus e permanecer nos seus caminhos. Quando isto se torna realidade na perspectiva individual, naturalmente fluirá para a vida em família, pois a vida é feliz na família que teme a Deus (Salmos 128:1-2).

2) É preciso suportar as adversidades e tratar os problemas em família
Embora os problemas possam e devam ser compartilhados no âmbito familiar, por vezes costumam ser enfrentados unilateralmente. Por outro lado, alguns preferem fazer de conta que eles não existem, numa tentativa inócua de ignorá-los. Outros, ainda, reconhecem que eles existem, mas fogem dos problemas.
Como resposta às adversidades que desafiam a felicidade familiar, podemos refletir em, pelo menos, três princípios bíblicos que nos deixam as seguintes lições: A união aumenta a resistência (Eclesiastes 4: 9-12); Vencer junto é melhor (Provérbios 24:6); e,  abandonar a família não é solução (Rute 1:16-17).
Enfrentar os embates da vida na perspectiva dos princípios bíblicos e com os corações regados em amor, fortalece as relações, renova as esperanças, alivia as dores e promove a calmaria.

3) Adorar a Deus é o maior propósito da família
Desfrutar a vida com a mulher que ama e gozar da felicidade da vida em família, além de ser privilégio, deve ser colocado sobretudo como propósito, como nas palavras de Josué:" Eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (Josué 24:15).
Compartilhar a fé, as experiências e o crescimento espiritual é tarefa que nasce no seio da família. Lembremos que o próprio Jesus agiu assim, mesmo não sendo bem recebido entre os seus conterrâneos (Lucas 4:24). O apóstolo Paulo, no entanto, admira e elogia a fé de Timóteo, pois foi inspirada e cultivada nos exemplos de sua mãe e sua avó (2 Timóteo 1:5).

No modelo de comunhão adotado inicialmente pela igreja cristã em cada família havia uma igreja, demonstrando quão prazeroso é o ambiente familiar nutrido no amor de Deus: "Saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles... "(Romanos 16:5).

Para concluir, é preciso não duvidar, não esquecer, não desanimar: a vida é melhor em família. Mesmo nos momentos difíceis, lembremo-nos de que felicidade é coisa de Deus, de que é preciso suportar e tratar os problemas em família e, por fim, que adorar a Deus é o maior propósito da família.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Olhar com bondade, viver com justiça!

Autor: Boaz Rios
Geralmente conhecemos muito pouco e, às vezes, quase nada, sobre pessoas, coisas, situações, enfim, sobre tudo na vida. O julgamento sobre coisas ou situações é fortemente influenciado pela imensa quantidade de informações que atualmente temos acesso, como também, pelo caráter volátil dessas informações que se desatualizam rapidamente, tornando as decisões, ainda mais, complexas. Já, em se tratando de pessoas... como é difícil ter um juízo perfeito!
Fazer juízo de valor ou fazer escolhas quanto a pessoas, coisas ou situações, são atitudes do nosso cotidiano. Não temos como negá-las ou, sequer, fugir delas. É preciso desenvolver habilidades para melhor discernir, analisar e se posicionar ante os dilemas da vida.
É errôneo e enganoso o pensamento que nos afasta dos julgamentos, como se tudo se resolvesse naturalmente, sem que, ao menos, tivéssemos que tomar decisões à luz da música popular: "Deixa a vida me levar...". Outros, equivocadamente, poderiam até usar as palavras de Jesus: "Não julgueis e não sereis julgados" (Mateus 7:1). No entanto, o propósito do Mestre era afastar o juízo hipócrita, desarrazoado e sem equidade, pois, em outro momento, o mesmo Jesus afirma: "Julgai segundo a reta justiça" (João 7:24). Outros textos bíblicos alertam para a necessidade e o cuidado no julgar: … julgaste bem. (Lc 7:43); ... por que não julgais também por vós mesmos o que é justo? (Lc 12:57); ...julgai vós mesmos o que digo … (1Co 10:15); Mas o que é espiritual discerne bem tudo … (1Co 2:15).
Convém nos determos um pouco na busca do caminho que nos conduz ao julgamento equilibrado e justo. Neste sentido, é preciso ter cuidados com generalizações, como: "Não há ninguém em que se possa confiar"; "Todos são iguais e cometem os mesmos erros"; "As coisas são assim mesmo...". Generalizar é tentar fugir das escolhas, ignorando-as. Este estilo de vida, à deriva, proveniente da não decisão, revela duas características: conformação e impotência.
A conformação pode representar uma aceitável resignação ante ao irremediável, mas, por outro lado, pode resultar de uma adaptação forçada pelas circunstâncias. Conformando-se, evita-se estabelecer distinções e predileções, que poderia levar a confrontos internos e externos. Logo, generalizar, suaviza as relações e adia a necessidade de escolha.
Generalizar, por outro lado, representa impotência quando universaliza determinadas características pela simples razão de não querer ou supor que não possa confrontá-las. É evidente que ativamos o senso crítico a cada nova situação apresentada, porém, é muito mais confortável jogar na vala comum ou tratar com banalidade o novo que se revela, do que posicionar-se quanto a ele.
Ao afastar-se das generalizações, é preciso cautela quanto ao perigo da supremacia das minorias. Deus é tão minucioso em sua criação que deu a cada ser no universo características peculiares, compondo harmonicamente a beleza da vida, como diz as escrituras: "E Deus viu tudo que havia feito, e tudo havia ficado muito bom" (Gênesis 1:31). Isto quer dizer que as pequenas particularidades, os detalhes e peculiaridades são importantes, todavia compõem um todo. Pelo princípio da harmonia universal, sobrepor peculiaridades, supervalorizar coisas e situações, ou tentar ver o mundo por somente uma cor, mesmo que seja com cinquenta tons, desequilibra a harmonia edênica, e distorce a beleza da vida.
Diante da necessidade de julgar, é importante atentar para o caminho traçado por Jesus Cristo: "Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz" (Mateus 6:22). Observa-se que a bondade determina a luminosidade do corpo, afastando o julgamento equivocado, desatencioso ou sombrio. Isto aponta para a necessidade de buscar princípios divinos a fim de valorar as nossas decisões e podermos olhar com bondade e viver com justiça, como veremos a seguir.
Como primeiro princípio destacamos a Supremacia e a satisfação de Deus em cada juízo. Sem dúvida, Deus é o julgador supremo: "É Deus quem preside na assembleia divina; no meio dos deuses, ele é o juiz" (Salmos 82:1). Por mais que persistam atitudes despreocupadas ou inconsequentes, no fundo, sabemos que em algum momento nossas escolhas serão expostas diante de nós como um déjà vu, em plenitude de razão e consciência diante de Deus, que é expressão da verdade suprema.
Muitas vezes julgamos mal, porque o fazemos para nós mesmos. Quando aprendemos a escolher a partir de Deus, mudam-se os critérios da seleção e passamos a desejar agradá-lo. A satisfação de Deus será a nossa alegria na certeza das melhores escolhas: "Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor" ( Romanos 14:7-8).
Como segundo princípio destacamos que existe nas decisões um caráter personalíssimo, como se lê: "De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus" (Romanos 14:12-13). As escolhas são próprias de cada um, não devendo ser transferidas a ninguém, e mesmo que sejam, as consequências não recairão sobre outra pessoa, mas sempre serão colhidas pelo transmissor. 
Frisamos, como terceiro princípio, que a paz e o cuidado com o próximo são balizadores nas decisões. Buscar a verdade a qualquer custo, como se resultasse de uma aventura épica, pode causar muita dor e sofrimento a si mesmo e a outros. Por outro lado, a revelação maior é fruto do amor de Deus que se manifestou ao mundo (João 3:16), de forma que todos que a recebem tenham a vida, e participem da verdade inclusiva. Por isso, na trajetória da vida com justiça não atropelamos, não abandonamos, não sufocamos, mas buscamos o crescimento coletivo, como aconselha o apóstolo Paulo "Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros" (Romanos 14:19).
É preciso destacar que a vida encontra sua plenitude em Deus, seu criador, que não compactua com a maldade, como nas palavras do salmista: "Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite" (Salmos 1:1-2). Neste sentido, a limitação da impiedade se coloca como quarto princípio divino para  olhar com bondade e viver com justiça.
Outro princípio encontra-se na necessária proteção aos humildes. Atualmente, o princípio da hipossuficiência é garantido em lei em alguns casos, e jurisdicionalmente reconhecido nos tribunais. Por isso, aqui se coloca como o quinto princípio de modo a olhar com bondade e viver com justiça, a exemplo do que alerta o salmista: "Até quando vocês vão absolver os culpados e favorecer os ímpios? Garantam justiça para os fracos e para os órfãos; mantenham os direitos dos necessitados e dos oprimidos. Livrem os fracos e os pobres; libertem-nos das mãos dos ímpios" (Salmos 82:1-3). 
Por fim, Paulo aponta o sexto e último princípio aqui examinado, ao orientar que sejamos revestidos de amor para aperfeiçoar os vínculos, nomeando a paz de Cristo como o juiz nos corações (Colossenses 3:14-15). Isto quer dizer que ao estabelecer as relações  no amor oferecido por Jesus, haverá paz nas decisões, escolhas e julgamentos, conforme aponta Paulo: "E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus" (Filipenses 1:9-11).
Concluindo, enfatizamos que julgar é necessário, mesmo implicando em muitos dilemas, desafios e desgastes. Os princípios divinos aqui apontados não são os únicos e, portanto,  outros critérios bíblicos podem ajudar neste difícil processo, afinal, como orienta o sábio Salomão: "O que começa o pleito parece justo, até que vem o outro e o examina" (Provérbios 18:17).

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Quero beber vinho novo com Jesus

Autor: Boaz Rios

Não há nada mais confortante na despedida do que a certeza do reencontro. Em certa ocasião, mesmo na iminência de uma morte trágica e dolorosa, Jesus convidou seus discípulos para uma festa. Montou o cenário e promoveu um generoso momento de comunhão e celebração. Preparou o local, pediu comidas, bebidas, e honrou aos seus amigos lavando e enxugando os seus pés. No entanto, o consolo maior viria nas palavras do Mestre: "Eu lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai" (Mateus 26:29).
Daquele dia em diante, amigos, seguidores e discípulos vivem a expectativa do reencontro com Jesus. A referência ao vinho sugere um acontecimento festivo, alegre, incomparável.
Do ponto de vista pessoal, a perspectiva de experimentar um prazer inigualável e duradouro, cria e nutre em mim um desejo único e inafastável: Desejo beber o vinho novo com Jesus.
Em um momento anterior Jesus falou sobre os instantes que antecedem a este momento festivo, nos quais, por conta dos preparativos, há necessidade de trabalho. A vinha necessita ser cuidada e o vinho precisa ser produzido. Ele tratou do assunto através de uma parábola envolvendo três elementos: O Senhor, os dois filhos e a vinha (Mateus 21: 28-32).

1) O Senhor da Vinha
A vinha simboliza o universo, a criação, sendo Deus o dono de todas as coisas, pois Ele tem a propriedade: "Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém" (Salmos 24:1). Não vivemos num abandono interminável. Por mais que observemos destruição e desamparo na criação, Deus continua sendo o soberano de todas as coisas, e por fim, exigirá contas aos seus administradores.
Deus, também, tem o domínio, a direção, o comando: "Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo" (Salmos 103:19). Ainda que o mal se levante e pareça indestrutível, prevalecerá o domínio eterno e onipotente do grande Deus.
Além disso, O Senhor tem zelo e cuidado com a sua criação: "Quando treme a terra com todos os seus habitantes, sou eu que mantenho firmes as suas colunas" (Salmos 75:3). O que seria de nós se Deus descansasse do seu cuidado?
Contudo, Ele convida a todos a participarem de sua obra. O Senhor da vinha na parábola, chamou aos dois filhos propondo-lhes que fossem realizar o trabalho necessário. Mais do que um encargo, deve ser um prazer sentir-se parte de uma obra tão maravilhosa. Assim, afirma o apóstolo Paulo quando nos convida: "Sedes firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor (I coríntios 15:58).

2) A Ordem, o encargo
Para a colheita de bons frutos, é preciso cuidar da vinha. O lavrador olha para a terra ociosa e já antevê a colheita dos frutos, contudo, sabe que é necessário muito trabalho e cuidados com o solo e a plantação. Ele pode ter uma boa terra, uma boa semente, mas se não se dispor ao serviço os resultados serão desastrosos.
O Senhor chamou aos dois filhos passando-lhes o encargo de cuidar da vinha. O trato com a plantação era vital para a colheita de bons frutos e a produção de um bom vinho. A ordem partiu de quem tinha autoridade, foi transmitida com clareza e em momento oportuno. Por consequência, parece óbvio que deveria ser atendida por ambos os filhos, porquanto, agradaria ao Pai e garantiria produção, sustento, prosperidade e alegria.
Na vida, participamos do esforço do Criador para a restauração de todas as coisas. O interesse divino inclui a busca pela perfeita harmonia do homem consigo mesmo, com Deus e com toda a criação. Neste encargo seremos vitoriosos se cooperarmos com Jesus Cristo na sua missão: "assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável" (Efésios 5:26,27).
O Encargo, portanto, expressa o desejo revelado em Cristo de restaurar todas as coisas, seres viventes e toda a criação (Romanos 8:19). Somos convidados a participar honrosamente da valiosa missão: Ir à vinha, cuidar dela e se preparar para o reencontro com o Mestre.

3) Os filhos: faces da diversidade
Nesta parábola o mestre Jesus Cristo demonstra existir diversos comportamentos entre os filhos. Todos recebem a mesma ordem, no entanto, reagem de maneiras diferentes. Os pais, geralmente, sabem que os filhos são diferentes e se comportam de formas distintas.
Quanto ao chamado de Deus aos homens e mulheres, são estes os comportamentos possíveis:
a) O impenitente declarado e assumido - Rejeita completamente a autoridade do Pai e, deliberadamente, não o obedece;
b) O impenitente vacilante, inconstante e indefinido - Reconhece a autoridade do Pai, mas não o obedece, pensando estar agradando-lhe somente com meras palavras: O Filho disse que iria à vinha, mas não foi;
c) O penitente - Arrependido, cônscio dos seus erros e disposto a corrigi-los. Muda de atitude dispondo-se a cooperar.

Concluindo:

Participar da festa e beber o vinho novo com Jesus, é infinitamente prazeroso e desejável. O Pai, Senhor da vinha e da vida, tem a propriedade, autoridade, domínio e zela por sua criação. A missão já foi revelada e todos são chamados a cumpri-la. No entanto, é preciso um autoconhecimento: "analise, pois, o homem a si mesmo, e como do pão e beba do vinho, pois quem come e bebe sem discernir o corpo, comerá juízo para si" (I Coríntios 11:28). É preciso atitude a exemplo do filho pródigo: "Levantar-me-ei e direi: Pai pequei contra o céu e diante de ti" (Lucas 15:18). É preciso trabalho e persistência, inspirados nas palavras do Mestre, quando diz: "Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus" (Lucas9:62). Enfim, participaremos de um momento único, porém eterno, de alegria extasiante, contudo, totalmente sóbria. Tudo isso me faz concluir: Quero beber vinho novo com Jesus.